About my work

Foto Paulo Cunha 

A ARTE QUE SE EXPLICA 

Abílio Febra costuma dizer que “a arte não se explica”. Tenho opinião contrária, motivo por que costumam ser longas as nossas amigáveis discussões sobre o tema. A arte explica-se, sim, Abílio. Explica-se no sentido em que se podem revelar os sentimentos e ideias que estiveram na génese da obra que se apresenta aos nossos olhos. Dizes-me que esse trabalho de percepção daquilo que a obra de arte encerra cabe a cada indivíduo que a admire e interprete, que a esse indivíduo deve ser deixada a liberdade de sentir a obra sem constrangimentos, sem os constrangimentos do autor. Digo-te que, pelo contrário, o conhecimento das motivações do artista leva o público a apreciar a obra de forma mais completa, sem que esta perca um certo valor individual, sem que o público fique coarctado na sua liberdade.A arte explica-se, sim, Abílio. A tua obra de homenagem aos empresários da indústria do plástico ganha mais cor, mais sabor, mais calor, quando sabemos que ela representa, no fundo, dois operários, ou seja, dois “artesãos do plástico”, que, não investindo capital, constroem a dita indústria com o seu trabalho. O público da tua escultura ficará enriquecido – e não empobrecido –, observa-la-á com mais curiosidade – e não com menos liberdade –, depois de saber que nestes operários do plástico também é possível ver dois guerreiros, dois guerreiros que lutam não para destruir, como a vida nos habitua a pensar, mas sim para criar algo novo, o produto final da indústria.A arte explica-se, sim, Abílio. A tua enorme escultura em ferro é, sem dúvida, uma verdadeira homenagem à capacidade de iniciativa e ao empreendedorismo dos empresários da indústria do plástico, é certo. Mas transcende os próprios empresários, homenageando também os processos de criação e produção e aqueles que neles intervêm directamente.E que esta explicação seja apenas e só uma ajuda no trabalho de apreciação da tua magnífica obra, deixando ao Outro, àquele que a aprecia, a margem necessária para “ver” tudo mais que entender. 

Ana Rita Ferreira – Jornalista

ENSAIO SOBRE ARTE E CONTEMPLAÇÃO

A descoberta de uma obra de arte não pode ser só sensação. Tem que ser também reflexão. E o trabalho de Abílio Febra revela-nos esse poder. Provoca-nos. Incita-nos ao combate. Não no sentido guerreiro da palavra, como erradamente se pode concluir ao observar as lanças e escudos projectados nas suas esculturas, mas numa inspiradora vontade de celebrar a vida.

Abílio Febra idolatra o ar que respira. E reclama constantemente a liberdade para a assumpção do interior imaginário. Parece que herdou a determinação do saudoso Artur. O Bual. Desenha com vigor, pinta com vigor, esculpe com vigor. Como fio condutor, usa sempre uma grande dose de coragem. Gosta de desafiar. Adora desafiar-se.

O tempo, essa medida abstracta inventada pelo Homem, é presença constante na sua obra. Ora nos remete para os tempos medievais, através de guerreiros conquistadores, elmos e escudos dissimulados, ora nos empurra para o dilema dos tempos modernos, onde o pêndulo do tempo aparece aprisionado.

Fazendo fé nas teorias de Klaus Honnef, crítico de arte, atrevo-me a sugerir que os trabalhos do Abílio Febra “são como partituras de uma profunda filosofia do tempo, que nunca perde o seu carácter concreto para cair no abstracto, mas oferece ao observador imagens mentais de uma materialidade concreta e palpável”.

No conjunto escultórico de homenagem à indústria de plásticos, o efeito visual pode ser metafísico, mas remete para a realidade. Tem como finalidade contar uma história. Recordar a História. Projectar a História.

O facto de aqui me ser permitido explorar a subjectividade, leva-me a querer começar pelo clímax da obra. Apetece-me abrir caminho pela mensagem que lhe está subjacente.

Na realidade, o que dá o mote ao projecto são duas máquinas antigas arrancadas a um destino mais que provável: a sucata. Verdadeiros testemunhos de um tempo passado, eram agora vítimas de um presente obcecado com a evolução tecnológica. Contudo, ao serem acopladas na escultura, surgem reduzidas à escala de uma convicção. O Abílio quis dar-nos uma visão artística do sentido lírico da vida. Quis mostrar que o Homem mantém a superioridade em relação à máquina.

Quem olha para esta obra, depara-se com dois ‘guerreiros’ em ferro, imponentes, num frente-a-frente ambicioso. É um autêntico tributo a operários e industriais. De um lado, o ‘portador’ da extrusora. Do outro, o da máquina de injecção. Apesar da lança empunhada por um dos ‘guerreiros do plástico’, o que se invoca ali é a luta pela perfeição. A procura constante do aperfeiçoamento no processo de transformação da matéria-prima.

Por fim, a ligação ao tempo. A marca do escultor. Ao colocar os seus habituais meios círculos num dos topos do trabalho, Abílio Febra assegurou o diálogo da obra com o Firmamento. É por ali que irá fluir toda a energia da peça. Sempre que o observador o quiser.

 

Francisco Pedro – Jornalista

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